Quatro números do mesmo trimestre, quatro histórias diferentes
O balanço da Casas Bahia do segundo trimestre de 2026 foi adiado duas vezes e saiu na madrugada de um domingo. Nele, a companhia informou que gerou R$ 798 milhões de caixa livre no período e que a alavancagem havia caído para 0,5 vez. No mesmo dia, o conselho autorizou e a empresa protocolou pedido de recuperação judicial envolvendo R$ 17,3 bilhões em dívidas.
Não há contradição nisso, e é aí que o caso fica interessante. Dentro de um único trimestre, a mesma empresa produziu quatro números que apontam para direções opostas. Cada um responde a uma pergunta diferente.
O mesmo trimestre, medido de quatro formas
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O prejuízo contábil responde à pergunta do contador: quanto o patrimônio encolheu, somando tudo que a norma manda reconhecer. O prejuízo ajustado mede quanto a empresa perdeu na rotina dela. O EBITDA ajustado, equivalente a 7,4% da receita líquida de R$ 6,98 bilhões, mede se a operação dá lucro. E o caixa livre mede o que entrou menos o que saiu de dinheiro de verdade.
Nenhum dos quatro está errado. Eles medem coisas diferentes, e é possível ter todos ao mesmo tempo. A distância entre o primeiro e o segundo vem de R$ 9,1 bilhões em efeitos não recorrentes, que a companhia informou não afetar o caixa do trimestre. A composição deles diz mais que o total.
De onde vêm os R$ 9,1 bilhões de efeitos não recorrentes
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O maior item é a baixa de Imposto de Renda diferido. Esse ativo representa créditos fiscais que a empresa esperava usar para pagar menos imposto no futuro, e ele só pode permanecer no balanço enquanto houver expectativa de lucro tributável suficiente para consumi-lo. Ao dar baixa, a companhia registrou que essa expectativa deixou de atender aos critérios contábeis.
É por isso que tratar os R$ 9,1 bilhões como ruído não funciona. Não sai dinheiro do caixa hoje, correto. Mas a maior parte dessa baixa é o reconhecimento formal de que o lucro esperado lá na frente não é mais esperado. Não é uma perda do trimestre, é uma revisão do futuro.
E aí aparece a razão de o pedido de recuperação judicial ter saído no mesmo dia do balanço.
O que a operação gera contra o que a dívida custa
Clique na legenda para isolar uma das linhas. Valores em R$ milhões, por trimestre.
Em 2025, a operação gerava cerca de R$ 570 milhões por trimestre e o custo financeiro rodava perto de R$ 1 bilhão. Um ano depois, a operação caiu para R$ 518 milhões e o custo financeiro chegou a R$ 1,278 bilhão. A tesoura abriu. No 2T26, a dívida custou quase duas vezes e meia o que a operação produziu antes de juros, impostos e depreciação.
Quando essa relação se inverte e se mantém invertida, a conclusão é aritmética: a operação não tem como pagar a dívida, por melhor que ela fique. Vender mais não resolve, cortar custo não resolve, melhorar margem não resolve.
Comparação por período
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O contraponto corta para os dois lados. Do lado bom, a operação melhorou onde dependia de gestão: a margem bruta subiu de 30,1% para 32,9% e o lucro bruto cresceu 10,9% com receita quase parada. Do lado ruim, o prejuízo ajustado é 76% pior que o de um ano antes, o EBITDA ajustado caiu 9,4%, o patrimônio líquido ficou negativo em R$ 8,1 bilhões e a própria companhia registrou no documento a existência de incerteza relevante sobre a capacidade de continuar operando normalmente. Quem lê só a melhora de margem e quem lê só o prejuízo bilionário erram do mesmo jeito, por motivos opostos.
A recuperação judicial abrange cerca de R$ 17,3 bilhões, dos quais R$ 16,4 bilhões, ou 94,8%, estão com credores sem garantia. No dia do pedido, a dívida declarada equivalia a aproximadamente 26 vezes o valor de mercado da companhia. O processo vem dois anos depois de uma recuperação extrajudicial que havia reestruturado R$ 4,8 bilhões.
O que fica vale para empresa de qualquer tamanho. Lucro, resultado operacional, caixa e solvência são quatro medidas distintas, e acompanhar uma só produz diagnóstico errado. Dá para gerar caixa num trimestre e não conseguir honrar o que vence no seguinte. O indicador que a empresa escolhe divulgar costuma ser o que a favorece, e a alavancagem de 0,5 vez parecia confortável porque mede uma parte da dívida, não tudo o que ela devia. A pergunta que antecipa o problema não é quanto sobrou no mês, é se o que a operação gera cobre o que a estrutura de capital consome. Essa relação aparece muito antes da crise e é a mais fácil de calcular.
Fonte: divulgação de resultados e demonstrações financeiras intermediárias do Grupo Casas Bahia referentes ao 2T26, publicadas em 16 de agosto de 2026, comunicados da companhia sobre o pedido de recuperação judicial protocolado na mesma data, e divulgações dos trimestres anteriores citados. Valores em reais, referentes aos trimestres encerrados, comparados conforme indicado em cada gráfico. Margens calculadas sobre a receita líquida. Há divergência entre fontes quanto ao valor exato da baixa de Imposto de Renda diferido, entre R$ 5,5 e R$ 5,7 bilhões; aqui foi adotado o valor maior. Análise de 15 de setembro de 2026. Material informativo, sem recomendação de investimento.
